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     Para mim os animais importam!




    RELIGARE!
     


    O QUE IMPORTA É OUVIR A VOZ QUE VEM DO CORAÇÃO

    Começamos a contemplar as nossas alternativas sem carro.  Eu registro algumas idéias numa folha de papel, uma embaixo da outra.  São Paulo.  BH.  Salvador.  Cruzeiro Rio São Francisco.  Alugar um carro.

     

    Não, o Thomas intervém, “alugar um carro” deve estar em outra coluna, pois é “como” e não “onde”!

     

    Eu reconheço esse desconstruir um problema em suas variáveis, o primeiro passo de um processo estruturado, racional de tomada de decisões, pois também eu opero assim.  Isso é ótimo para decidir se uso dendê ou mamona como matéria-prima de biodiesel.  Mas aqui o que importa é ouvir a voz que vem do coração.

     

    Com todas essas vozes em mim, a voz do ego, a voz do superego, a voz do id, a vox populi, A Voz do Brasil, a voz das autoridades, a voz da Juju, a voz da Ludeju, a voz de Deus, a voz de Javier Bardem, a voz do dono e o dono da voz, com todas essas vozes em mim, como reconheço a voz que vem do coração?



    Escrito por LUX! às 23h20
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    BABY, WHAT’S WRONG?

    Pela primeira vez nessa viagem, e pela primeira vez desde que o conheço, o Thomas tem um quase bico, um olhar que desvia do meu.

     

    Pergunto o que se passa e aos poucos o Thomas me revela que é ótimo que eu não me estresse, ainda melhor que eu não reclame, não o critique, não o pressione.  Não, ele não precisa da minha ajuda, está tudo sob controle, ele gosta de resolver problemas.  Mas ele precisa sim do meu sentimento, da minha empatia.  E que eu esteja tão sorridente, tão serena, tão confiante... é quase ofensivo!  Eu preciso demonstrar que empatizo com sua preocupação, mostrar que estou aqui com ele, fazer uma cara de compaixão.



    Escrito por LUX! às 23h20
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    JE SUIS DÉSESPÉRÉ

    É claro que não se passa por um intensivo de central de atendimento sem que se perca o humor, a razão, a esperança ou mesmo a sanidade, e a cada momento o Thomas dispara um adjetivo mais dramático para o carro, a seguradora, as oficinas, o sol, o calor, a umidade, os mosquitos.  Desesperador, catastrófico, desastroso, esgotador.

     

    Eu sorrio.  Um pouco porque sou um tipo mais, enfim, sereno.  Um pouco porque confio na abundância, na divina providência.  Mas sobretudo porque já me entreguei ao meu lado Penélope Charmosa, e tenho certeza de que o Thomas resolverá tudo isso de forma exemplar.



    Escrito por LUX! às 23h19
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    ALLÔ, BONJOUR! C'EST THOMAS BRIEU À L'APPAREIL 2

    O Thomas é ótimo de networking, de elogio, e ainda melhor de negociação.  O Thomas convenceu a seguradora a rebocar nosso carro pifado para São Paulo, uma distância de 1.200 km, ainda que a cobertura se restringisse a 400 km. 

     

    Agora parece apenas razoável que a seguradora tenha concordado em mandar o carro para São Paulo, já que apenas em São Paulo há manutenção para o Subaru Outback Legacy. 

     

    Mas vocês têm idéia da quantidade de telefonemas necessária para se concluir que apenas em São Paulo há manutenção para o Subaru Outback Legacy?  E vocês têm idéia da quantidade de telefonemas e de paciência necessária para persuadir os vários interlocutores na seguradora, cada um dizendo que não tinha registro da conversa anterior, cada um ancorado nas burocracias das centrais de atendimento, cada um sentenciando o Thomas a ouvir marchinhas de carnaval por dez, quinze, trinta minutos?

     

    E o meu trabalho nisso tudo consistiu em, bem, em não atrapalhar, o que já é uma grande coisa!  E em fazer uma cara de compaixão, como depois me foi explicitamente solicitado.



    Escrito por LUX! às 23h19
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    TEMPO DAS ÁGUAS

    Não dá para não gostar de chuva quando se está no pantanal ou no cerrado.  Por aqui chamam a estação chuvosa de tempo das águas.  Isso é poesia, é o melhor da prosa, é Guimarães Rosa.



    Escrito por LUX! às 11h47
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    ÍDICHE

    Perguntam-me o que é chutzpah, título de um dos capítulos desse blog.  Chutzpah é a palavra ídiche para atrevimento, tanto no sentido positivo de audácia como no negativo de petulância. 

     

    Não sou judia.  Mas morei três anos em Nova Iorque, onde o inglês coloquial apropriou-se de algumas palavras do ídiche.

     

    Meu português coloquial também apropriou-se de algumas palavras do ídiche.  Mensch é um rapaz certinho, adorável.  Schmooze é conversa trivial.  Schmuck é idiota.  Kosher é correto, certo, apropriado.



    Escrito por LUX! às 21h28
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    AI, AI, AI, AI

    Há cerca de dez anos reconciliei-me com a chuva.  Foi quando comecei a usar lentes de contato e a ter maior sensibilidade para a poluição da cidade.  Até então não gostava de chuva.  Cresci na cidade, ao som de “por favor chuva ruim, não molhe mais o meu amor assim”, doutrinada a identificar “tempo ruim” com tempo chuvoso.

     

    Mas há reconciliação e reconciliação.  Há cerca de cinco anos passei a amar a chuva, a amar tomar banho de chuva. 

     

    No Guardiões do Cerrado tomei uns banhos de chuva como os banhos de chuva devem ser, no meio do mato, desses que lavam o corpo e a alma, uma mikva.



    Escrito por LUX! às 21h10
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    DO SOMETHING, ANYTHING

    Parece que a minha estratégia de confiar na divina providência ficou nas calendas gregas.  Acabo de receber um sms do Thomas dizendo “vamos organizar as coisas?”

     

    Para mim essa hora de organizar as coisas...ainda não chegou.  Estar exatamente onde estou, num cyber café em Janaúna, norte de Minas, onde o cerrado se encontra com a caatinga, me parece perfeito, o paraíso, o melhor lugar do mundo.



    Escrito por LUX! às 17h41
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    ACESSO DE RISO

    Nas últimas três noites tive acessos de riso. 

     

    Na primeira delas o Thomas disse que as minhas roupas penduradas pelo quarto, meu varal improvisado, tudo isso era como viver numa favela.

     

    Na segunda delas dei-me conta que, de Goiânia até Jaíba, onde o cerrado se encontra com a caatinga, estou imergindo num universo totalmente novo para mim.  Sinto sinapses acontecendo em regiões do meu cérebro que estavam dormentes.  Tentar lembrar o nome de todas as pragas do pinhão-manso, aí já é demais.  Lembro-me de ácaro branco, cigarrinha verde, percevejo, e está de bom tamanho.

     

    Ontem o carro quebrou de vez.  Ainda não sabemos se fazemos alguma coisa sobre isso ou se confiamos na divina providência.  O acesso de riso foi perceber que, sem o carro, e com o tanto de coisa que o Thomas trouxe, tudo isso será como viver num acampamento dos sem-terra. 

    Escrito por LUX! às 17h34
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    ARROBA

    Inquieta-me que o sinal gráfico @, usado em endereços eletrônicos, como no inglês at, também seja usado na abreviação de arroba, unidade de medida de peso para produtos agropecuários, equivalente a 15 quilos.

    Escrito por LUX! às 17h18
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    O QUE SERÁ QUE ME DÁ

    É o óbvio ululante:  Não se deve tomar emprestado o namorado de alguém, muito menos de uma amiga!  Quantos sms, dores, scraps, ciúmes, testimonials, irritações poderiam ter sido evitados! 

    Escrito por LUX! às 16h51
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    TE EMPRESTO MEU NAMORADO

    O povo da minha terra continua dando demonstrações admiráveis da sua cordialidade.  A mais deliciosa foi o almoço mineiro com que o Sr. Vagner e a D. Bernadete nos receberam em Buritizeiro, essa cidade simpática às margens do grandioso São Francisco.  A mais inusitada ouvi de uma moça em Janaúba, quando me perdi ao tentar voltar a pé para o hotel:  “Ah, tá longe demais.  Te empresto meu namorado pra te levar de moto!”



    Escrito por LUX! às 16h51
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    NÃO FAÇO AQUILO QUE EU QUERO, MAS AQUILO QUE EU MAIS DETESTO

    Ainda assim, algo se perde entre aquilo que eu entendo ou aspiro e aquilo que eu faço, e como me é difícil estar num relacionamento onde eu dou mais do que recebo.  Ah, não sou tão iluminada assim!  Preciso de troca!  Já vou logo propondo:  Vamos re-equilibrar esse relacionamento?

    Escrito por LUX! às 16h50
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    A BELEZA DE AMAR É SE DAR

    Em algum momento, in the end, dar e receber se equilibram:  The love I take is equal to the love I make.  Mas aqui e agora, com cada uma das pessoas com as quais eu me relaciono, há sempre um desequilíbrio.  Estou sempre dando mais do que recebendo, ou recebendo mais do que dando.

     

    A espiritualidade nos convida a ser aquele que dá mais do que recebe, a sermos generosos.  É essa a essência da oração de São Francisco, “Ó Mestre, fazei que eu procure mais / Consolar, que ser consolado / Compreender, que ser compreendido / Amar, que ser amado”.

     

    Isso eu entendia bem antes de praticar o catolicismo, pois desde sempre pratiquei a bossa nova.  Pobre de quem não entendeu que a beleza de amar é se dar.



    Escrito por LUX! às 16h49
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    SIMETRIA

    Meus conhecimentos de terra e plantio se resumem aos que adquiri cuidando dos vasos do meu apartamento em São Paulo.  Bom, não é bem assim pois o meu pai é botânico.  Enfim, não sou uma garota do campo, nem ao menos uma jardineira fiel.  Mas quando o Bouzinac nos falou da sua técnica em manejo sustentável de terra, entendi na hora:  O que eu retiro eu devolvo, o que eu recebo eu dou.

     

    Não é essa a grande lição dos evangelhos, do dharma e dos Beatles?  “And in the end, the love you take / Is equal to the love you make”.



    Escrito por LUX! às 16h48
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    O MELHOR DIA DA MINHA VIDA

    O Thomas também é ótimo de elogio.  Sobre um guacamole que preparei para ele e a Luçany em Goiânia, ouvi:  Esse guacamole é o melhor dia da minha vida!



    Escrito por LUX! às 16h47
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    ALLÔ, BONJOUR! C'EST THOMAS BRIEU À L'APPAREIL

    O Thomas é ótimo de networking.  Agendar reuniões, colocar pessoas em contato, trocar informações.  Graças a esse talento, em Goiânia, Brasília e no norte de Minas Gerais cumprimos uma agenda primorosa de reuniões sobre bio-combustível e agricultura familiar, e de visitas a centros de pesquisa, usinas, projetos de irrigação e plantações de cana-de-açúcar e oleaginosas.  Por todos fomos recebidos como reis. 

     

    Na viagem pelo norte de Minas tivemos a companhia luxuosa do Mário e do João, dois grandes experts em agricultura.  Dois grandes, não.  Dois dos maiores, que o João já trabalhou pelo Brasil inteiro, agora com a ONU, e o Mário já trabalhou pelo mundo inteiro, inclusive com a ONU e o Banco Mundial.  São excelentes de agricultura e excelentes de prosa, de piada, de comida, de estória, de Brasil.  Muito obrigada, meus amigos!



    Escrito por LUX! às 16h47
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    LÚCIA DON’T PREACH 2

    Juju, obrigada por continuar a compartilhar comigo as suas estórias, apesar das minhas tendências à pregação.



    Escrito por LUX! às 16h46
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    LÚCIA DON’T PREACH

    Só há pouco me dei conta de que o meu “tô aqui!” vem acompanhado de uma análise e mesmo de uma recomendação.  Tudo o que eu preciso dizer é “sinto muito que o seu mp3 tenha quebrado”, mas me é tão mais natural dizer “parece que esse mp3 que você comprou por R$100 no StandCenter é fake.  Da próxima vez, talvez seja melhor comprar um produto mais confiável, de um fornecedor mais confiável”.



    Escrito por LUX! às 16h46
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    SPFW

    Não é só em crises que meus amigos me dizem “tô aqui!”.  Durante essa viagem, e através de uns poucos scraps no orkut, busquei um acesso ao superexclusivo evento de moda SPFW para a Jana.  O Marcelo, a Chris e o Serginho responderam “tô aqui!”  OBRIGADA, meu amores!



    Escrito por LUX! às 16h45
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    NEVER THERE

    Meus pais são “tô aqui!”, meus irmãos são “tô aqui!”, meus amigos são “tô aqui!”.  Precisei fazer uma amiga que sempre some para que eu entendesse a sorte, a felicidade, a benção que é ser rodeada por pessoas “tô aqui!”.



    Escrito por LUX! às 16h45
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    COMPAIXÃO

    Adoro a palavra compaixão.  Compaixão vem de COM (em comum) e PAIXÃO, passion, pathos (sentimento, sofrimento).  Compaixão é comunidade de sentimentos, de sofrimentos.  Ter compaixão é sentir com, sofrer com. 



    Escrito por LUX! às 16h45
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    TÔ AQUI!

    E toda vez em que eu chamo “Thomas!” ele responde “tô aqui!”.  Às vezes “tô aqui!” quer dizer “conserto para você”, “faço para você”.  Outras tantas só quer dizer “estou aqui com você”.  O chuveiro queimou, seu mp3 quebrou, a água está gélida...mas estou aqui com você.



    Escrito por LUX! às 16h44
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    THOMAS!

    Tenho lá o meu lado Lara Croft.  Aos 24 anos viajei sozinha, mochila nas costas, por Tailândia, Indonésia, Malásia, Filipinas.  Em 2003 percorri sozinha e a pé, mochila nas costas, 1.300 km no Chemin de Saint-Jacques na França e o Caminho de Santiago na Espanha. 

     

    Mas também tenho o meu lado Penélope Charmosa.  E como estar ao lado do Thomas aflora esse lado!  Em casa já tratei de fazê-lo consertar coisas quebradas, pendurar quadros, abrir garrafas, e até montar uma prateleira.  Nessa viagem não é diferente.  Thomas!  O chuveiro queimou!  Thomas!  Meu mp3 quebrou!  Thomas!  A água está gélida!



    Escrito por LUX! às 16h43
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    MEMENTO

    Comecei a escrever meu blog em Word.  Fiz um copiar/colar de um texto já longo, de umas sete páginas, de uma vez só.  Então só agora me dou conta de que o texto aparece em seqüência inversa.  O que escrevi por último aparece primeiro.  Algumas idéias ficaram meio soltas, sem sentido.

     

    Isso me lembra do filme Memento, em que as cenas são montadas na seqüência inversa.  Não me entusiasmo pelo cinema americano, mas esse filme é extraordinário.  Para mim o melhor da dramaturgia americana, já que não tenho acesso ao seu teatro, está na televisão.  The Sopranos, The Shield, Nip/Tuck, Desperate Housewives, ER.



    Escrito por LUX! às 13h51
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    ONÇA

    Uma foto de um filhote de onça no colo do meu pai, a bordo de um navio numa expedição no Rio Amazonas, é uma das mais doces lembranças da minha infância. Essa foto me fazia sentir assim uma versão feminina do Johnny Quest. Até escrever isso me faz tão bem...

     

    Quando vejo, hoje, meu pai contrariado com o IPTU o mensalão a gerente do banco a transposição do Rio São Francisco, eu penso, daddy, don’t let these things get you down. Você é o cara com um filhote de onça no colo, a bordo de um navio numa expedição no Rio Amazonas.



    Escrito por LUX! às 21h16
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    MEDO?

    Mas o que é, afinal, o medo?  Não gosto ou quero ser assaltada, e sou cautelosa para não ser assaltada.  Mas não digo que tenho medo de ser assaltada porque não é uma idéia que me consome ou me tira do centro.  Tampouco andar a cavalo é uma idéia que me consome ou me tira do centro, mas considero-a um medo sim.

     

    De toda forma, essa lista seria bem maior se eu a tivesse escrito em janeiro de 2006.  2006 foi um ano bom para lidar e superar um monte de medos e bloqueios.  Várias pessoas me ajudaram.  Primeiro, e com primícias, o Thomas.  Meu grupo todo no ISH.  Antonio, Eliana, Chris, Patrícia, Soutinho, Juju, Sidney, Ari.  Por causa de vocês estou mais a vontade no mundo.  OBRIGADA!  Vou deixar anotado aqui que preciso falar das quarentenas, em especial do projeto atrevimento.



    Escrito por LUX! às 21h39
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    VOCÊ TEM MEDO DE QUE?

    Mas eu tenho medo de que?  Vou nomeá-los, da forma em que me chegam à cabeça, com o coração em sintonia com meu grupo no ISH.  Em especial a Cacá e a Flávia.  JALLALLA!

     

    Amar (ágape, filia ou eros) e ser rejeitada.  Ser amada (eros) por alguém que não amo.  Andar a cavalo.  Andar em superfícies escorregadias.  Estar no rio ou mar com correnteza.  Estar sem controle de mim mesma.  Estar com alguém gritando, comigo ou com outra pessoa.  Decepcionar a minha família.  Perder a minha independência, a minha privacidade.  Praticar esportes radicais...tudo que envolve adrenalina e/ou requer muito equilíbrio.  Pagar mico, ser ridícula, ser julgada, estar aquém da imagem que de mim projeto.  Dar uma má notícia para alguém.  Voar.  Ter a sensação de queda livre, como esquiando ou em parques de diversão.



    Escrito por LUX! às 21h38
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    A MULHER MAIS CORAJOSA DO MUNDO

    O Seu Kardec me considera a mulher mais corajosa que ele conheceu na vida, e “olha que eu nasci em 1935!”.  Tá bom.  Imagino ele me vendo na Gruta Azul em Bonito, andando naquelas pedras escorregadias com a insegurança de quem pisa descalça em cacos de vidro.  O Thomas tem uma paciência espetacular com esse meu tipo de comportamento, como ninguém teve comigo, mas sobre isso falarei num outro capítulo.  No capítulo sobre amor em ação.  Vou deixar anotado aqui que nesse capítulo também falarei de Jean-Yves Leloup e energia crística.



    Escrito por LUX! às 21h37
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    OLÁ, MEDO!

    Estou sozinha no Guardiões do Cerrado.  Eu e o Thomas éramos os únicos hóspedes.  O Thomas viajou para resolver uns assuntos em São Paulo, o gerente recebeu a triste notícia do falecimento do seu filho em Jataí.  Depois de ouvir estórias e mais estórias de sucuri, jararaca, onça pintada, onça vermelha, Boi Bandido, Mula Sem Cabeça, Negrinho do Pastoreio e outras assombrações, pego-me sozinha, sem ninguém num raio de 20 km, num lugar no meio do mato e do nada, onde faltam luz e telefonia o tempo todo.

     

    Dentro da reserva há uma aldeia na forma de círculo, com cabanas com telhado de palha; estou em uma delas.  Esse é um lugar místico, rodeado por grutas e abrigos onde foram encontradas pinturas e gravuras de até 11,000 anos.  Acredito que essa aldeia celebre algo da vida dos nossos indígenas, mas minha referência mais próxima dela é a aldeia do Asterix.  Para quem fez o Caminho de Santiago, lembra O Cebreiro.

     

    Aqui tem todo tipo de situação, estória e geografia que me conectam com os meus medos, no seu estado mais físico, de paralisia, mãos e pés transpirando, pernas inseguras, coração acelerado, estômago revirado.

     

    Não, não tenho medo de assombrações, cobras ou onças.  Sobretudo se estou em São Paulo, com todos os seus 13 milhões de habitantes, ou mesmo aqui, onde quase não se vê gente, durante o dia.   Mas à noite, sozinha, com todos esses ruídos e uma escuridão total...tive medo sim!  Mas os sentimentos vão e vem...E agora, numa sala na frente do computador, com luz e tudo o mais, uma onda de coragem tomou conta de mim...e nada me parece mais patético do que o medo que passei nas duas últimas noites.

     

    Mas mesmo o medo e a sensação de fragilidade têm sua luz...Parte dessa luz é perceber que, mesmo quando estou só, estou no pensamento das pessoas que amo.  Na primeira noite em que estava só li um scrap do Tommy no orkut e senti-me estranhamente protegida.  Outra parte dessa luz é reconhecer a abundância do universo.  Nas duas noites em que estou só, e quando já está escuro, o Seu Allan Kardec – oui, uma homenagem ao líder do espiritismo cristão – apareceu aqui para passar a noite na reserva.  Ele ficou sabendo na cidade de Serranópolis, a uns 20 km daqui, que eu estava sozinha.  Pegou umas caronas e chegou com uma muda de roupa porque “não, menina, não pode passar a noite sozinha aqui, não.”  Pois...conheço o povo da minha terra!



    Escrito por LUX! às 21h37
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    ALWAYS DO WHAT YOU ARE AFRAID TO DO

    Não sou masoquista, não tenho uma preferência por remar contra a maré, sequer caminho na contra-mão dos meus talentos, Sr. Jean!  Aliás, em grande parte do tempo o medo e a preguiça me convencem a fazer aquilo que conheço, aquilo com que estou confortável.  Mas existem sim boas razões para que eu procure lidar com meus medos e bloqueios.

     

    A melhor e primeira dessas razões tiro do título do filme de Fassbinder:  O medo devora a alma!  E sem alma, meus amigos, como sentenciou o genial Nelson Rodrigues, não se chupa nem um Chicabon.

     

    A segunda razão é que em algum momento decidi viver a vida, e vivê-la em abundância.  E isso implica em que eu me depare com medos.  Sou cautelosa e tudo o mais, mas não é possível eliminar ou fugir de situações que despertem medo.  Até porque essa fuga também tem seu preço.  O monge budista Rahula, com quem fiz um retiro há dois anos, chama esse preço de sofrimento.  Ele diz que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional.  Sofrimento, ele explica, é todo o esforço que eu faço para não ter que lidar com a minha dor.  São as estratégias de fuga da dor, da realidade, do medo. 

     

    E aqui então está a minha liberdade:  Escolher entre a dor de lidar com os medos e o sofrimento de fugir deles!  Não concordo com o “always” da frase do título, “Always do what you are afraid to do”, que não é minha e sim do grande poeta americano Ralph Waldo Emerson.  Acredito que maior sabedoria consiste em deixar essa escolha para aqui e agora, diante de cada situação...pois muitas vezes, reconheço, falta-me o amor para lidar com o medo!

     

    Sim, o contrário de medo é amor.  Eu poderia escrever muito sobre isso, até porque tenho um grupo de desenvolvimento pessoal no ISH cujo tema é “Amar é libertar-se do medo”.  Mas prefiro citar o trecho da carta de João: “No amor não há medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo; porque o medo envolve castigo; e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor.”.



    Escrito por LUX! às 21h36
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    CHUTZPAH

    Uma dessas plaquinhas com o código genético das sementes anuncia, em vermelho e amarelo, Roundup Ready.  É uma semente transgênica de soja, talvez a mais popular semente transgênica cultivada no Brasil.  Roundup Ready foi criada pela Monsanto para ser resistente ao herbicida Roundup, produzido e comercializado pela própria Monsanto.



    Escrito por LUX! às 21h36
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    BRASIL, CELEIRO DO MUNDO

    Mal entramos em Goiás e já demos de cara com as extensas plantações de soja, soja, soja.  Às vezes vemos milho, outras poucas, cana-de-açúcar.  Cada quadra de plantação têm uma plaquinha com o código genético das sementes.  Algumas são transgênicas ou “geneticamente modificadas”, como preferem os produtores.  Nossa primeira parada em Goiás é uma reserva ecológica no cerrado, Guardiões do Cerrado.  Há dez anos o Professor Othon comprou essa terra de cerca de 150 hectares, quase toda ela desmatada e transformada em pasto, e desde então dedica-se a reflorestá-la com espécies locais.



    Escrito por LUX! às 21h35
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    ROTA DAS MULAS

    Mais de metade da cocaína que chega ao Brasil passa por Corumbá, essa cidade bela e alegre no meio do pantanal e às margens do Rio Paraguai, que separa o Brasil da Bolívia.  Lá fizemos, o Thomas e eu, um passeio de barco por esse  lindíssimo rio.  Pergunto ao barqueiro se ele é sondado para transportar cocaína.  “Sim, mas não paga a pena, pois pagam muito pouco.”  Na seqüência o barqueiro me dá a dica de como comprar pó em Puerto Suarez.  Qualquer pessoa saberá me dizer quem vende, todo pó é bom, mas atenção!  Ao entrar de volta no Brasil, devo trocar de roupa e estar sozinha.  A polícia brasileira já terá recebido, do vendedor, a informação de que uma paulista de blusa vermelha acompanhada de um gringo loiro está traficando cocaína.



    Escrito por LUX! às 21h35
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    MINHA TERRA TEM PALMEIRAS


    Há uma abundância de aves no Brasil central.  Arara azul, arara vermelha, cardeal, tucano, periquito, sabiá, garça, urubu, tuiuiú, siriema, pica-pau, e tantos outros nomes que eu, uma garota da cidade, não saberia repetir.  O fato é que as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.  É uma exuberância de cores, vôos, cantos e tudo o mais.


    Mas a nossa fauna terrestre, bem, this ain’t no Kenya.  Tirando as onças, os macacos e os jacarés, sobram os bichinhos beginhos ou marronzinhos, com alguns poucos palmos de altura.  São tatus, antas, capivaras, tamanduás, quatis, pacas.  Imagino um documentário no National Geographic, esses bichos em câmera lenta com suas pernas curtinhas e seu andar desajeitado, chapliniano.



    Escrito por LUX! às 21h34
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    DISCO VOADOR

    Estamos na estrada de Bonito a Miranda.  É uma estrada de terra.  É noite, não há uma única luz, um único carro, uma única casa, uma única pessoa.  Estacionamos o carro.  Lá fora, milhares, milhões de vaga-lumes, e uma profusão de ruídos.  São grilos, gafanhotos, cigarras, sapos, rãs, pererecas, ah, não sei, sou uma garota da cidade.  Enfim, todos esses ruídos, juntos, produzem o que se assemelha ao som de um disco voador.

     

    Depois ocorreu-me que eram mais do que disco voador, aqueles sons e luzes eram Sonho de uma Noite de Verão.  Era mágico, celta, enfeitiçado.  Transportei-me para uma montagem que assisti no Barbican Theatre com meus queridos amigos Fernanda e Alessandro.



    Escrito por LUX! às 21h34
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    DESEJO

    Em Bonito, um garoto de uns dez anos me convida a entrar com ele numa gruta em uma cachoeira.  “Essa é a Gruta do Desejo”, ele me conta com entusiasmo, “vamos fazer um desejo”.  Dentro da gruta nos concentramos em nossos desejos, mas logo nossa atenção é desviada para uma figura fálica de pedra que se projeta do fundo da gruta.  É uma pedra grande, não, mais que grande, enorme, de cerca de um metro.  “Olha!”, o garoto me diz, dando risada.  Eu rio de volta.  E ele então me pergunta:  “E aí, você vai me contar o seu desejo?” 

     

    Estamos diante, diante não, dentro da imagem arquetípica do desejo, de um fallus na gruta.  Mas aquele garoto já escolheu o significado do nome daquela gruta:  É desejo como pedido, como voto.

     

    Adoro essas coisas da língua, da comunicação.  Ah, estou pensando um projeto com o Thomas que envolve que eu seja fluente em francês.  Gostaria imensamente de escrever sobre esse projeto, mas por ora estou impedida.



    Escrito por LUX! às 21h33
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    BRASILINO

    Que alegria se um filho meu e do Thomas tivesse a gestão de tempo do pai e a memória da mãe!  E que desastre se tivesse a gestão de tempo da mãe e a memória do pai!



    Escrito por LUX! às 21h33
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    TEMPO E MEMÓRIA

    O Thomas adora lidar com o tempo.  Ele é meticulosamente pontual.  Mais:  Ele flerta com o tempo.  Ele adora adivinhar, e anunciar, quanto tempo levará para concluir uma tarefa.  “Estaremos em Miranda em 28 minutos.”  “A agente de turismo vai nos ligar com uma resposta às 14:17”.

     

    Já comigo a estória é outra.  Se acho que preciso de vinte minutos para aprontar-me, serão pelo menos quarenta.  Se planejo viajar amanhã de manhã, amanhã de manhã acordo decidida a ficar.

     

    Eu sou boa de memória.  Nomes, cores, aromas, melodias, citações, datas, rostos, lembro de tudo.  Eu sei exatamente em que lugar de um livro li uma frase que me chamou a atenção.  Eu sei exatamente em que lugar da minha mala está cada uma das minhas coisas.

     

    Já com o Thomas a estória é outra.  Ele é uma explosão de perdas e esquecimentos.  Todos os dias ele perde a caneta, os óculos, a câmera fotográfica, o shampoo, o aparelho ortodôntico.  Toda a sua memória de infância e adolescência, ele me conta, reside nos seus pais, irmã, amigos. 

     

    Desconfio que o escudo que carrego nessa viagem é, afinal, a memória do Thomas.

     

    Penso que eu estou sempre no momento presente, presente demais para me transpor ao momento seguinte.  E o Thomas está sempre no momento seguinte, futuro demais para prestar atenção em onde deixa a caneta, os óculos, a câmera fotográfica, o shampoo, o aparelho ortodôntico.



    Escrito por LUX! às 21h33
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    SHOULD WE STAY OR SHOULD WE GO?

    O Thomas está sempre pronto para partir, e eu sempre poderia ficar um pouco mais.  Penso um pouco nas polaridades que poderiam explicar essas diferenças.  As primeiras refletem mais o jeito do Thomas, as segundas, o meu.  Diligência e procrastinação.  Ansiedade e serenidade.  Vida ativa e vida contemplativa.  Marta e Maria.  Fluidez e concretude.  Transcendência e imanência.  Yang e yin.  Masculino e feminino.



    Escrito por LUX! às 21h32
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    PRAZERES E PEDÁGIOS

    Às vezes é preciso vencer uma pequena barreira, um pequeno bloqueio, para que um grande prazer se realize.  É, o acesso a alguns prazeres é mais livre.  Passear com meu cachorro Clio ou tomar um macchiato no Suplicy, por exemplo.  Outros prazeres tem ali o seu pedágio, como cair na água fria.  Outros ainda precisam ser cultivados. 

     

    Sim, ninguém se apaixona natural e imediatamente por charutos.  Mas os meus vizinhos na Tabacaria Rinaldi parecem ter descoberto um paraíso na terra.  Nem vou entrar no mérito dos males associados a alguns prazeres – como o tabaco, certas substâncias químicas, ou sexo sem proteção – pois estamos em 2007 e todo mundo já sabe que there's no such a thing as a free lunch.

     

    Se até os prazeres têm o seu pedágio, precisam ser cultivados...o que dizer das virtudes?  O que dizer do amor?  Nossa, requerem muito cultivo.  “Love is a flower / You've got to let it grow”, disse John Lennon em Mind Games.  Bom, falarei mais sobre isso num capítulo sobre amor em ação.



    Escrito por LUX! às 21h32
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    DEIXAR-ME INSPIRAR

    Mas voltemos outra vez ao tema da inspiração.  O universo me apresenta uma abundância de inspiração.  Preciso apenas acessá-la e deixar-me inspirar, deixar-me tocar.  Por que deixar-me inspirar?  Porque também se trata de uma escolha.  Eu poderia ter ouvido a canção da Madonna com ouvidos de quem acredita que música pop e comercial está aquém dos meus sentimentos.  Mas não:  Escolhi que tudo pode me inspirar, e aqui de novo a estória do tudo vale a pena se a alma não é pequena.

     

    Compartilho uma inspiração recente.  Em Bonito fizemos uma trilha linda numa fazenda, com várias cachoeiras maravilhosas.  Olhei a primeira dessas cachoeiras e senti uma preguiça, um bloqueio de entrar na água fria.  Daí eu lembrei de uma foto da Marina, uma menina que conheci no orkut.  Na foto, um grupo de meninas prepara-se para cair na piscina, e a legenda diz algo como:  “Esse revezamento vai ser nosso prá sempre.  Não existe nada capaz de nos superar.  Obrigada, meninas!”.  Eu achei isso girl power para caramba, bom demais da conta, como se diz por aqui.  Enfim, enquanto receava entrar na cachoeira, essa imagem clicou na minha mente, e recebi toda a inspiração para entrar na água.  Estava deliciosa!  OBRIGADA, Marina!  Depois vi que a Marina é sobrinha da Mara e filha do Dado, amigos da minha adolescência.  Mas sobre sincronicidade escreverei depois. 



    Escrito por LUX! às 21h31
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    LISTAS

    Mas A Liberdade é Azul não é o meu filme predileto.  O meu filme predileto é Esse Obscuro Objeto do Desejo, de Luis Buñuel.  Vou ter que escrever sobre esse filme porque tenho me sentido um pouco como o personagem do Fernando Rey -- o que não é uma boa coisa.  Bom, quem sabe eu deixe de me sentir assim nos próximos dias e poupe vocês de mais essa bizarrice? 

     

    Enfim, inspirada pelo livro Hi-Fidelity de Nick Hornby, também eu saí fazendo minhas listas.  Em cinema, ficou assim.  O filme mais engraçado é Kind Hearts and Coronets, com Alec Guinness.  O mais bonito é Lawrence of Arábia, de David Lean.  O mais desconcertante é A Professora de Piano, com Isabelle Huppert.  O mais romântico – ainda que estranhamente romântico – é O Morro dos Ventos Uivantes, com Laurence Oliver, Merle Oberon e David Niven.  O mais surpreendente é Fale com Ela, de Pedro Almodóvar.



    Escrito por LUX! às 21h31
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    SANS L’AMOUR, JE NE SUIS RIEN

    Não contei ao Thomas, mas conto para vocês agora, que o filme que mais me inspirou é A Liberdade é Azul, de Krzysztof Kieslowski.  A protagonista, lindamente interpretada por Juliette Binoche, perde o marido perfeito e a filha num acidente de automóvel. Primeiro a vemos entregando-se à dor da perda através de um projeto de anti-vida, de desligamento de tudo e de todos. Em seguida a vemos tomando conhecimento de que o marido não era tão perfeito assim: Ele tinha uma amante que dele estava grávida.

     

    E então nos perguntamos: Como é que a nossa protagonista vai lidar com tudo isso?

     

    Se fosse uma história de Nelson Rodrigues, acho que assistiríamos a uma catarse. Ciente de que seu casamento de comercial de margarina fora uma farsa, nossa protagonista se entregaria a algum ritual libertador: Sexo com o melhor amigo do marido? Com o motorista do lotação?

     

    Provavelmente Hollywood nos brindaria com um novo amor para a protagonista – a second chance, como se convencionou chamar. O cara bacana, sensível, bonitão e tudo o mais – um personagem que Aydan Quinn, e não Sean Penn, interpretaria.

     

    Mas como é a trilogia de M Kieslowski, a nossa protagonista se encontra com a amante do marido para doar a ela, e ao bebê, tudo que havia herdado do marido. Ela escolhe o perdão à vingança e ao ressentimento.

     

    E é essa a liberdade do título do filme, tanto no sentido de libertação do ressentimento (pois o ressentimento prende-nos a um passado doloroso), como no sentido de liberdade de escolha. Algumas vezes não temos controle sobre a situação em que nos encontramos – mas ainda assim temos a liberdade de escolher os sentimentos e as ações com os quais reagiremos a essa situação.

     

    Nossa protagonista fez uma escolha de amor. Uma das últimas cenas do filme a traz concluindo um concerto iniciado pelo marido, um maestro e compositor, com o trecho da carta de Paulo sobre amor: Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse amor, seria como um bronze que soa ou como um címbalo que tine.



    Escrito por LUX! às 21h31
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    NÃO FAÇA NADA COM A RAIVA

    Marshall Rosenberg, criador da comunicação não-violenta, diz que a raiva tem uma única função, que é a de nos alertar que não estamos sendo atendidos em algo de que necessitamos, como respeito, amor ou carinho.  Concentre-se então na sua necessidade, diz Marshall, e comunique, de forma não-violenta, como ela poderia ser atendida.  Não faça mais nada com a raiva!

     

    É parecida a mensagem do monge zen-budista Thich Nhat Hanh, cujo Aprendendo a Lidar Com a Raiva eu li e discuti com a Marise, minha querida companheira de meditação, nas tardes de domingo.  A Marise é espiritualidade em tudo, é budismo no dia-a-dia, é a pessoa mais aqui e agora que eu conheço.  Enfim, o Thay nos ensina a acolher a raiva, a conversar com a raiva e, bem, a não fazer mais nada com a raiva!



    Escrito por LUX! às 21h30
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    HAY HORAS QUE NO SE LO QUE ME PASA

    É claro que às vezes não dou conta.  Há situações ou pessoas, quase sempre pessoas, que me fazem apertar meus botões de raiva com precisão.  Saio do eixo.

     

    Tive um ataque de raiva em pleno Natal e outro, já em janeiro, por sms.  (Ataque de raiva por sms?  Bem vindos aos terceiro milênio!) 

     

    Depois de um ataque de raiva fico me sentindo assim um quase-nada.



    Escrito por LUX! às 21h30
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    INSPIRAÇÃO

    Estou adorando dirigir, e gostando ainda mais de dirigir conversando.  Talvez seja a experiência de dirigir no pantanal, no cerrado, onde o horizonte constantemente se amplia.  Focar a visão no horizonte bem longe também amplia nossos horizontes pessoais?  Acho que foi isso que a Sabine nos disse nas práticas de Feldenkrais.  Pois as idéias saem organizadas, a fala articulada, com citações perfeitas e tudo o mais, como que psicografadas.

     

    Numa dessas conversas contei ao Thomas como eu havia deixado-me inspirar pela música Frozen da Madonna na época do fim do meu casamento.  Eu sentia uma mistura de indignação, mágoa e rejeição, e isso é um campo muito fecundo para fechar um coração.  Daí saiu essa canção da Madonna, Frozen, sobre perdão, sobre renovação, sobre o amor como escolha.  “You only see what your eyes want to see / How can life be what you want it to be / You're frozen / When your heart's not open.”

     

    Também contei ao Thomas sobre como um trecho de De Profundis, de Oscar Wilde, havia me tocado.  O ano da minha separação também era o ano de algum aniversário de Oscar Wilde e eu, em celebração, resolvi ler sua obra completa.  Ah, o trecho de De Profundis:  “Only what is fine, and finely conceived can feed love. But anything will feed hate.”  Sim, eu sinto raiva.  Mas como tudo pode alimentar a raiva, e como os sentimentos vão e vem, tomo muito cuidado para não alimentar a minha raiva, e ainda mais para não agir na raiva.  Essa é a minha forma amorosa de tomar conta das minhas formações mentais.



    Escrito por LUX! às 21h29
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    CONHEÇO O POVO DA MINHA TERRA

    Mas o melhor e mais verdadeiro nessa viagem é deixar-nos tocar pelo amor, pela cordialidade, como preferiu Sérgio Buarque de Holanda, do brasileiro.  Foi lindo percorrer a Estrada Parque e encontrar jacarés, sucuris, capivaras, tatus, antas e todo tipo de ave.  Mas não foi ainda melhor o acolhimento caloroso do Vilmar e da Maria Divina quando atolamos o carro?  Eram seis da tarde, estávamos cheios de barro, com fome, e com ainda 60 km para chegar ao hotel mais próximo, mas eu já sabia: “Hoje passamos a noite aqui, Thomas.  Conheço o povo da minha terra!” 

     

    Esse “conheço o povo da minha terra” eu ouvi o Luiz Melodia dizer no programa da Patrícia Palumbo, apostando que o x em Petrobrax não rolaria.  Achei genial e adotei.

     

    Taí outra das minhas coisas favoritas:  Ouvir o Vozes do Brasil da Patrícia Palumbo.



    Escrito por LUX! às 21h28
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    A FEW OF MY FAVORITE THINGS

    Eu adoro um monte de idéias, pessoas e de coisas, e é claro que, entre essas, gosto mais de umas do que de outras.  Entre as coisas que eu adoro, algumas são sublimes, como ouvir Kyrie da Petite Messe Solennelle de Rossini e tantas outras, bem, são mesmo ilegais, imorais ou engordam.  Pensando melhor, nada do que eu curto é ilegal, mas deixemos os versos do Rei intocados. 

     

    Enfim, sobre essa categoria de coisas, as mundanas, vou falar outra hora.  Mas já adianto que não sou especialmente hedonista, mas tampouco avessa aos prazeres mundanos.  Muitas vezes o sagrado se revela para mim na mais profana das experiências.  Sim, tenho alma grande e, como escreveu Fernando Pessoa, tudo vale a pena se a alma não é pequena.  E mais:  Não gosto de excessos nem de coisas viciantes, os primeiros porque me tiram a energia do dia seguinte, ou mesmo sedam as minhas emoções hoje, e as segundas porque me tiram a liberdade de escolha.  E por fim:  Renuncio (ou procuro renunciar) àqueles prazeres que causam sofrimentos a outras pessoas e seres viventes, ao planeta e às gerações futuras.  Acho que tudo isso me aproxima dos epicuristas, mas já aviso que não sou propriamente consistente.  E a mais rápida ilustração disso é a água que consumo em cada um dos meus banhos... Suficiente para abastecer tuaregues por semanas!

     

    Bom, de volta àquilo que é legal, moral ou não engorda.  Das coisas mais deliciosas, duas estou experimentando pela primeira vez na viagem.  Uma delas é dirigir numa estrada reta e sem tráfego, a 120, 140 km por hora.  Weeeeeeeeee!  (Bom, talvez dirigir a essa velocidade seja ilegal, não?)  Outra é fazer uma flutuação.  Sim.  Trata-se de descer a correnteza de um rio cristalino, cheio de vida, vestido com roupa e sapatos de Neoprene, óculos de mergulho e snorkel.  Não sei se o mais gostoso é ver todos aqueles peixes, muitos deles, de todo tamanho, formato e cor...ou se é a experiência sensorial de deixar-me levar pela correnteza do Rio Sucuri.

     

    Toda vez que eu descubro algo novo e delicioso, pergunto-me o que mais posso descobrir.  Há três coisas que, imagino, seriam especialmente deliciosas:  Dançar lindamente.  De todas as danças de salão, a que se dança mais lindamente é o tango... Mas eu me contentaria em dançar lindamente um samba ou um bolerão mesmo.  Tocar um instrumento.  Finalizar uma maratona. 



    Escrito por LUX! às 21h28
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    VACA SAGRADA

    O gado que mais vemos por aqui é o nelore.  Ainda que passe o dia a comer e a engordar, esse gado nelore tem majestade, porte, beleza.  Como a maior parte das raças bovinas no Brasil, o nelore veio da Índia.  Lá se chama ongole. 

     

    O nelore é geralmente abatido aos três anos, quando alcança meia tonelada.  Desses 500 quilos, ficam 250 quilos de carne.  Se você come 200 gramas de carne bovina por dia, a cada três anos você come um boi ou uma vaca. 

     

    Como vegetariana que sou, e adepta da filosofia de “animais são amigos, não comida”, desconcerta-me que esse gado, sagrado na Índia, encontre aqui um destino tão mundano.



    Escrito por LUX! às 21h27
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    THIS AIN’T NO MARLBORO COUNTRY

    Com tanto trabalho, esses boiadeiros não têm tempo para ludismos.  Felizmente não vi nada por aqui enaltecendo a submissão dos animais ao homem.  Com muito menos gado os espanhóis institucionalizaram as touradas e os americanos, os rodeios.



    Escrito por LUX! às 21h27
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    NA BOIADA JÁ FUI BOI

    A vida dos boiadeiros é difícil.  Ficamos hospedados numa fazenda onde três boiadeiros cuidam de 800 cabeças de gado.  São 267 cabeças por boiadeiro. 

     

    Não consigo me imaginar tomando conta de 267 nada.  Eu ficaria exaurida se me dessem 267 tatus-bolinha para tomar conta.



    Escrito por LUX! às 21h26
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    A-DOR-REI!

    Quando o carro atolou na Estrada Parque, eu e o Thomas andamos, descalços, nessa terra molhada e pastosa.  Ele adorra essa experiência sensorial.  Já eu, bem, entrego-me ao meu lado Penélope Charmosa e “sim, meu anjo, vou preferir ficar no carro enquanto você tenta nos tirar daqui”.  Ele dá risada e continua a trabalhar.



    Escrito por LUX! às 21h26
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    VIDA DE GADO

    O Brasil tem o maior rebanho de gado do mundo, com mais de 200 milhões de cabeças.  Vinte milhões dessas vacas e bois estão no Mato Grosso do Sul, um estado de dois milhões de habitantes.

     

    Estamos encontrando milhares de vacas e bois nos nossos 1.600 quilômetros pelo Mato Grosso do Sul.  Esse estado especializou-se na engorda de gado, um dos três grandes processos da pecuária:  Cria, recria, e engorda.  Essas vacas e bois chegam aqui magros, caminhando dezenas ou centenas de quilômetros em boiadas, engordam, atingem lá seu peso de abate, e são mandados para frigoríficos em caminhões. 

     

    Dizem que a vida em pasto é infinitamente melhor do que aquela em confinamento.  Mas o gado do Mato Grosso do Sul não me parece ter uma vida fácil. 

     

    Quando bezerros, são logo tirados das suas mães e colocados num campinho cercado de arame eletrificado.  Esse bezerro vai temer qualquer arame pelo resto da sua vida.  Quando adultos, chegam a caminhar 60 quilômetros por dia em boiadas.  No tempo das águas, são conduzidos por estradas de terra molhada e pastosa.  Alguns atolam e são resgatados por tratores.  Aqueles cujos pastos alagam são deslocados em boiada duas vezes por ano, serra acima e serra abaixo.  Quando passam por rios, sempre um vira boi-de-piranha.  Quando o sol está a pino, são poucas as árvores e poucas as sombras para livrar o gado do calor ensandecente.



    Escrito por LUX! às 21h25
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    RE-LIGARE

    Na madrugada de 6 de janeiro, o Rodrigo, o Lu e a Grazie me deram um presente que...bem, se não rolar mais nada em 2007, o ano já terá valido a pena pelo presente que esses três reis magos me deram:  Minha procrastinação, esse eterno atraso de 24 horas na minha vida, traduz minha crença de que há uma versão melhorada de mim que lidará melhor com aquilo que hoje lido com dificuldade.  Hoje há um eu-REAL que se perde ou paralisa nos seus medos e bloqueios, mas aspiro a, ou percebo, um eu que realiza apesar dos medos e bloqueios.  Esse eu existe como POTÊNCIA, a ser realizado num amanhã. 

     

    Amei MILHÕES esse insight, como diria o Soutinho. GRAZIE MILLE, ragazzi!  Foi mais que insight, foi epifania.  O que é a espiritualidade senão o caminho pelo qual me aproximo de uma versão melhorada de mim mesma?  The path through which I become the person I want to be? 

     

    Amei tanto essa epifania que a elegi como tema espiritual da minha viagem.  Minha viagem é uma busca de RE-LIGARE, uma conexão COMIGO MESMA, entre meu eu-REAL e meu eu-POTÊNCIA.  Há também um tema, bueno, pragmático, e esse tema é entender o uso da terra no Brasil central. 

     

    Não, não somos turistas, somos VIAJANTES!

     

    E ainda que a hora de viajar não tivesse chegado, inspirada por essa versão melhorada de mim, tomei um avião e fui me encontrar com o Thomas em Bonito, no Mato Grosso do Sul.  Bom, qualquer hora eu explico que isso também foi vencer um bloqueio, pois voar não é a minha praia.



    Escrito por LUX! às 21h24
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    PRIMEIRA PARADA: ALAMEDA LORENA, 1177

    Tento concluir a ligação com a minha mãe, mas ela encontra uma forma de me segurar na linha...e eis que surge a pergunta da qual eu fugia:  “Quando é que você viaja, Lúcia?”

     

    De todas as perguntas que recebo, nenhuma me desconcerta mais do que aquelas que começam com quando.  Sim, vou voltar a ter um emprego estável, sim, vou me casar de novo, sim, vou aprender espanhol, sim, vou arrumar meu escritório, sim, vou correr uma maratona, sim, vou almoçar.  Mas quando ouço um QUANDO, projeto-me para não sei onde, para um universo paralelo, para o país das maravilhas de Alice...eu FUJO! 

     

    Sou aos poucos... Li isso em Água Viva, de Clarice Lispector, e me senti compreendida, aceita.   É como se tudo precisasse ter seu tempo -- e esse tempo poucas vezes é agora.  Sou o avesso do carpe diem, tudo seria melhor amanhã.  Hoje tudo é tão complicado, mas amanhã tudo fluirá tão bem...

     

    Muitas vezes esse amanhã chega, é aqui e agora.  Chega a hora, e não sei bem como ela chega, onde a coisa mais natural e premente é me casar de novo, aprender espanhol, arrumar meu escritório, correr uma maratona, almoçar.

     

    E essa hora de viajar...ainda não chegou.  O Thomas já está na estrada há um ou dois dias.  Mas para mim, estar exatamente onde estou, na Alameda Lorena, 1177, me parece perfeito, o paraíso, o melhor lugar do mundo.  Minha irmã Marília acha que há alguma coisa errada acontecendo, mas não é nada disso.  Amanhã, sim, é um bom dia para viajar.



    Escrito por LUX! às 21h23
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    UM BLOG SOBRE O QUE?

    Esse é um blog sobre a nossa viagem de carro pelo Brasil central.  Mas os sentimentos, sensações e experiências dessa viagem despertam e dialogam com tantos outros que estão em mim.  Aliás, esse tema foi tratado com genialidade pelo Michel Gondry e o Charlie Kaufman em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.  Ater-me à viagem seria impossível.  Não preciso falar mais nada. 

     

    Não preciso mas vou falar sobre algo que elaborarei mais tarde:  A beleza desse constante despertar e dialogar entre sentimentos, sensações e experiências, a beleza desse movimento é que me dá a liberdade de atribuir um significado positivo, ou ao menos satisfatório, para uma experiência que me incomodou ou machucou.  E quando elaborar essa reflexão, usarei duas idéias importantes.  Uma ouvi da Cacá (“todas as oportunidades de cura estão aqui e agora”), a outra, do Dom Laurence (“todas as minhas perdas se encontram na perda que experimento aqui e agora”).  ¡Hombre, que fuerte!



    Escrito por LUX! às 21h22
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    BEM VINDO AO MEU BLOG

    Perguntaram a Jorge Luis Borges porque ele publicava livros.  “Para parar de editá-los”, respondeu o incrível escritor argentino.  Já eu, eu coloco esses devaneios, com pouca ou nenhuma edição, e escritos ao longo de uma viagem pelo Brasil central, enfim, coloco-os no ar para lidar com um dos meus grandes medos, um dos meus grandes bloqueios, que é o de pagar mico, ser ridícula, ser julgada, estar aquém da imagem que de mim projeto.

     

    Essa viagem foi arquitetada por meu grande amigo Thomas.  Eu sou assim uma fiel escudeira, o Sancho Pança.  Não sou uma grande motorista ou planejadora de viagem ou navegadora ou conhecedora do meu país.  O fofo do Thomas carrega sua mala e muitas vezes a minha também, carrega nossa bagagem comum, cozinha as nossas refeições, troca pneus sozinho, e desatola o automóvel comigo dentro que é para eu não pisar no barro.  Com tudo isso, o escudo que carrego nessa aventura consiste em, bem, em não atrapalhar, o que já é uma grande coisa!  Já comecei atrapalhando sim com as minhas procrastinações.  Mas isso é o tema de outro capítulo, é o tema da minha viagem em SI!

     

    E aí está uma outra razão para colocar esses devaneios no ar:  Quando escrevo, eu elaboro, tomo consciência daquilo que, de forma contrária, simplesmente fluiria.  Bastou concluir o parágrafo acima para dar-me conta que precisamos, com urgência, re-equilibrar nossos papéis nessa viagem.  Re-equilibrar nossos papéis?  Aqui eu tucaneei mesmo!!!



    Escrito por LUX! às 21h21
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